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A trajetória de Laís Corrêa de Araújo

 

A homenagem do FLI-BH a Laís Corrêa de Araújo (1927/2006) é muito bem-vinda. Poeta, ensaísta, tradutora, cronista e autora de títulos infanto-juvenis, Laís integra uma geração importante e muito atuante, que inclui os poetas Augusto & Haroldo de Campos, Affonso Ávila, Décio Pignatari, Mário Faustino e Ferreira Gullar; os críticos/ensaístas Benedito Nunes e Luiz Costa Lima; o tradutor Boris Schnaiderman.

Trata-se de um grupo de intelectuais que deu a segunda grande contribuição à literatura brasileira no séc. 20, particularmente à poesia, depois da brilhante geração modernista da qual fazem parte Mário & Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Drummond, Murilo Mendes e outros mais.

Começando a atuar na década de 1950 (“Caderno de poesia”, seu primeiro livro, foi lançado em 51), Laís atingiu a plena maturidade poética com “Cantochão”, publicado em 67 (ganhador do prêmio “Cidade de Belo Horizonte”, em 65) – livro precedido por “O signo e outros poemas”, de 55, onde ela estabelece diálogo, de forma original, com as poetas Gabriela Mistral, Sóror Violante do Céu, AlfonsinaStorni e Rosalía de Castro – presentes em epígrafes. Foi o início de uma dicção própria. 

Em “Cantochão”, livro trabalhado e rigoroso, Laís apresenta uma renovação formal e conteudística. Explorando todas as potencialidades da palavra e voltando-se para temas não incluídos na sua poesia anterior (a crítica político-social, por ex.), Laís consolida em “Cantochão” uma voz feminina marcante, reafirmada depois em “Decurso de prazo” (1988) e “Pé de página” (1995).

Poeta ousada – que seguiu a trilha libertária de uma Gilka Machado e de uma Patrícia Galvão (Pagu) –, Laís foi também uma crítica arguta (lembre-se aqui a sua coluna “Roda Gigante”, na imprensa) e uma ensaísta de fôlego: seu ensaio pioneiro sobre Murilo Mendes, publicado em 1972, foi fundamental para a recuperação e reavaliação da obra do grande poeta mineiro, que se radicou em Roma.

Afora isso, é preciso lembrar a Laís engajada nas causas culturais: a única mulher-poeta a participar da Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, em 1963; a fundadora e colaboradora ativa do “Suplemento Literário de Minas Gerais”; a Superintendente das Bibliotecas Públicas do Estado (incluindo a Luís de Bessa, em BH); a incansável colaboradora de jornais e revistas de todo o país – e até da importante publicação “Colóquio Letras”, de Portugal.

Enfim, não poderia ser mais bem-vinda, reafirmo, essa homenagem do FLI-BH a Laís. Uma poeta à frente de seu tempo, ainda a ser mais conhecida, lida e estudada.

Carlos Ávila – Poeta e jornalista, autor de Bissexto sentido (Perspectiva) e Poesia pensada (7 Letras), entre outros.